A sucessão estadual no Maranhão vem sendo apresentada por setores da imprensa como uma disputa cada vez mais concentrada entre Eduardo Braide (PSD) e o sobrinho do governador Carlos Brandão, o ex-secretário de Assuntos Municipalistas Orleans Brandão (MDB).
Para além das narrativas que cercam a corrida pelo Palácio dos Leões, os números e a própria configuração política da disputa ajudam a explicar por que o vereador de São Luís e candidato a deputado federal Dr. Joel (PSD) classificou o correligionário como protagonista de uma mudança de paradigma.
“Hoje, vivemos um novo momento na política do Maranhão, onde precisamos conviver e aceitar que o fenômeno chamado Eduardo Braide está mudando o padrão e a forma de se pensar em cenário político”, afirmou Joel durante participação no PodKelson.
A declaração ganha dimensão quando confrontada com a forma como as duas principais candidaturas chegaram até aqui. Enquanto Orleans já percorria o Maranhão, articulava lideranças e estruturava seu projeto político, Braide manteve sua decisão sob expectativa até o último dia 31 de março, quando entregou sua carta de renúncia ao cargo de prefeito de São Luís e anunciou que disputaria o Governo do Estado.
Quando entrou definitivamente na corrida pela sucessão estadual, Eduardo encontrou o principal adversário com uma candidatura trabalhada havia muito mais tempo. Essa diferença de tempo e estrutura, entretanto, não encontrou correspondência automática nas pesquisas.
Ainda em março, antes mesmo de anunciar que seria candidato, levantamento do Paraná Pesquisas registrou o então prefeito de São Luís com 34,6% das intenções de voto, contra 30,3% de Orleans Brandão. Depois da entrada oficial no páreo, outros levantamentos o mantiveram em posição de destaque.
Na pesquisa Real Time Big Data divulgada no mês passado, Eduardo apareceu com 44%, contra 31% de Orleans, uma diferença de 13 pontos percentuais. Em uma eventual disputa de segundo turno entre os dois principais adversários, o mesmo levantamento apontou 52% para Braide e 38% para Orleans.
Esse contraste entre estrutura e desempenho foi um dos pontos colocados por Dr. Joel no centro da discussão. “Todo mundo está vendo os prefeitos que estão ao lado do candidato governista, por conta da estrutura administrativa. Como eles mesmos gostam de falar, quem tem a máquina, detém o dinheiro. No entanto, quem está em primeiro nas pesquisas? Essa é a resposta”, declarou.
Foi-se o tempo em que reunir grande parte da classe política em torno de uma candidatura parecia suficiente para antecipar os rumos de uma eleição no Maranhão. São Luís oferece um dos exemplos mais emblemáticos desse novo cenário.
Orleans Brandão conseguiu reunir em torno de seu projeto o apoio de 25 dos 31 vereadores da Câmara Ludovicense. A articulação recebeu ainda o reforço de mais de 40 suplentes, formando uma base política numericamente expressiva.
MATEMÁTICA POLÍTICA X MATEMÁTICA ELEITORAL
A matemática política, entretanto, não vem encontrando correspondência proporcional nos números eleitorais. Mesmo diante dessa concentração de apoios, Braide mantém forte desempenho na capital, onde foi reeleito em primeiro turno com percentual expressivo.
Na prática, esse amplo alinhamento político não significou, até aqui, transferência equivalente da preferência dos respectivos eleitorados. O fenômeno ganha dimensão ainda maior quando a análise sai da Grande Ilha.
No interior, onde historicamente a máquina municipal possui peso considerável nas eleições estaduais, Orleans iniciou sua movimentação muito antes. Mesmo assim, levantamentos realizados em diferentes regiões passaram a colocar em xeque a tese de que a força eleitoral do candidato do PSD estaria restrita a São Luís.
“Até porque isso é tão verdade que Eduardo Braide ganha também no interior. Antes, o que se dizia era que Braide só seria bem votado em São Luís. As pesquisas vieram agora e mostraram o contrário, não ganhamos apenas na capital. Na Baixada, por exemplo, estamos na frente em praticamente todas as cidades”, afirmou Joel.
MUDANÇA DE PARADIGMA:
É nesse cenário que a avaliação sobre uma mudança de paradigma ganha conteúdo político. Durante décadas, a formação de grandes alianças e a montagem de estruturas eleitorais robustas foram consideradas elementos determinantes para uma eleição estadual. O cenário atual começa a colocar essa lógica à prova.
A força da classe política continua tendo importância. O que os números questionam é a antiga ideia de que essa influência seria automaticamente transferida ao eleitor.
A capital demonstra isso de maneira particularmente clara. A superioridade do candidato governista entre os agentes políticos locais não encontra, até agora, reprodução proporcional quando a pergunta é feita diretamente à população.
BATALHA MIDIÁTICA:
Há ainda outro componente nessa disputa. Diariamente, a corrida pelo Governo do Maranhão ocupa blogs, portais, redes sociais e, principalmente, os inúmeros grupos de WhatsApp que movimentam a política maranhense. Notícias sobre adesões, crescimento eleitoral e projeções de uma disputa polarizada são apresentadas de forma permanente em uma intensa batalha pela construção da percepção pública.
Mas existe uma diferença entre construir uma narrativa política e transformá-la efetivamente em intenção de voto. A exposição da candidatura governista ainda convive com levantamentos que apontam Braide na liderança. As próprias convenções partidárias ajudam a ilustrar essa diferença entre demonstração de força política e comportamento eleitoral.
A convenção que oficializou Orleans Brandão, no último dia 25, transformou-se em uma grande demonstração de estrutura, com ampla mobilização de caravanas vindas de diferentes regiões do Maranhão. O tamanho do lançamento foi imediatamente interpretado como sendo o preferido no anseio popular. Já a convenção de Eduardo Braide seguiu outra dimensão. Realizada em espaço menor, embora também tenha reunido um grande público, mas não reproduziu a mesma demonstração apresentada pelo adversário.
A diferença entre os dois eventos recoloca a questão central desta eleição. Enquanto as convenções demonstram capacidade de mobilização e organização, as pesquisas registram algo diferente, a manifestação do eleitor naquele determinado momento.
É nessa distância que a disputa ganha contornos curiosos. A cada demonstração de força, blogs, redes sociais e grupos de WhatsApp alimentam a percepção de uma mudança definitiva no cenário. Mas uma narrativa, por mais vezes que seja repetida, não se transforma automaticamente em realidade eleitoral.
Isso não significa que a eleição esteja definida. Pesquisas são fotografias do momento, apresentam resultados distintos e o crescimento de Orleans não pode ser ignorado. O dado central é que, mesmo tendo entrado posteriormente na disputa, Braide permanece liderando levantamentos relevantes, colocando à prova o peso das estruturas tradicionais diante da decisão do eleitor.
Esse cenário ajuda a compreender o “fenômeno chamado Eduardo Braide” citado por Dr. Joel e expõe uma nova realidade da política maranhense. A capacidade de mobilização das estruturas tradicionais já não significa, necessariamente, a conquista da preferência do eleitor.
No fim, a impressão que se tem é que combinaram entre eles. Reuniram partidos, prefeitos, vereadores, suplentes e lideranças, promoveram grandes demonstrações de força e anunciaram reiteradamente um cenário que consideram consolidado. Só parece ter faltado combinar com quem terá a palavra definitiva em outubro, o povo.


