Itamargarethe Corrêa Lima – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.
Existe uma reflexão em O Evangelho Segundo o Espiritismo que atravessa o tempo e toca em algo profundamente humano. Ao tratar do orgulho e da humildade, a obra chama atenção para o erro de olhar a vida do outro e, apenas a partir daquilo que está visível, imaginar que ali existe uma felicidade completa.
Não conhecemos os bastidores da vida de ninguém, e essa talvez seja uma das verdades mais importantes quando se fala em depressão, embora ainda vivamos em uma sociedade acostumada a observar casas, profissões, relacionamentos, viagens, corpos, conquistas e fotografias e, a partir desses pequenos recortes, concluir que determinadas pessoas não teriam motivos para sofrer.
A depressão desmonta essa lógica porque a dor não possui uma aparência obrigatória, alguém pode trabalhar, sorrir, conversar, cuidar dos filhos, administrar uma empresa, ocupar posições importantes, viajar e continuar cumprindo suas responsabilidades enquanto, internamente, enfrenta uma batalha que ninguém percebe.
Uns choram, outros silenciam, há quem se afaste enquanto muitos permanecem cercados de gente. Existem aqueles que não conseguem sair da cama e também os que se levantam todas as manhãs, cumprem uma agenda inteira e retornam para casa exaustos, não apenas pelo trabalho, mas pelo esforço diário de parecer bem quando já não conseguem se sentir assim.
Talvez por isso seja tão perigoso determinar, olhando de fora, quem tem ou não motivos para estar deprimido. O sofrimento não respeita patrimônio, profissão, posição social, beleza ou reconhecimento, tampouco existe uma hierarquia capaz de estabelecer qual angústia merece ser reconhecida.
Nesse ponto, a reflexão espírita sobre a humildade ganha uma dimensão ainda mais profunda, pois ser humilde também significa reconhecer os limites da própria percepção e admitir que aquilo que se sabe sobre a vida de alguém corresponde apenas à parte que ela conseguiu ou decidiu mostrar.
Quantas vezes alguém aparentemente forte estava apenas tentando não desabar? Sorrisos podem esconder noites inteiras de angústia, assim como pessoas consideradas ingratas por terem “tudo para serem felizes” podem, na realidade, estar adoecidas sem sequer conseguir explicar o que acontece dentro delas.
É justamente por isso que frases como “você não tem motivo para estar assim” podem machucar tanto. A depressão não precisa de autorização externa para existir, e comparar a aflição de alguém com a de outra pessoa não cura, não conforta nem devolve esperança, muitas vezes apenas acrescenta culpa a quem já está tentando suportar uma carga enorme.
A espiritualidade pode oferecer acolhimento, esperança e sentido, mas jamais deve servir para transformar adoecimento em culpa ou falta de fé. Da mesma forma, procurar ajuda psicológica ou médica não significa abandonar qualquer convicção espiritual, pois ciência e fé ocupam espaços diferentes e, para muitos, podem caminhar lado a lado durante a reconstrução.
Talvez seja preciso aprender a enxergar o outro com menos certezas e mais cuidado, porque aquilo que dói nem sempre produz lágrimas diante dos outros, muitos pedidos de socorro permanecem em silêncio e quem parece estar bem pode estar enfrentando uma realidade completamente diferente.
Uma fotografia bonita muitas vezes esconde uma noite difícil, assim como quem cuida de todos também precisa ser cuidado. Até mesmo um sorriso é capaz de encobrir uma batalha inteira, porque algumas das dores mais profundas da vida são justamente aquelas que ninguém consegue ver. Por hoje, ficamos por aqui. Semana que vem tem mais.
